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Mondo Fashion

Saint Laurent

A marca criada por um símbolo de ousadia e autenticidade, o mestre Yves Saint Laurent, instituiu clássicos históricos na moda e até hoje se mantém atual pelas mãos do polêmico estilista Hedi Slimane que, ao assumir a grife em 2012, mudou seu nome para “Saint Laurent”.
Graziela Canella Andrea Tavares

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modelo SL16

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Da Argélia à maison Dior
A marca leva o nome de seu criador, Yves Henri Donat Mathieu Saint Laurent, nascido em 1º de agosto de 1936 em Ora, no litoral da Argélia, que foi colônia francesa até 1962. Filho de um corretor de seguros, ainda criança, já manifestou interesse por moda, quando elaborava bonecas de papel com roupas detalhadas. Na adolescência, desenhava vestidos para a mãe e as duas irmãs mais novas, Michelle e Brigitte.

Aos 17 anos, mudou-se para Paris, onde iniciou um curso na tradicional École de la chambre syndicate de la haute couture (do francês, algo como “Escola da câmara sindical de alta costura”). Suas criações começaram a chamar a atenção ainda durante os estudos e Saint Laurent chegou a ganhar um concurso de novos talentos. Seu primeiro emprego foi como assistente de Christian Dior, a quem foi apresentado pelo editor da Vogue francesa na época, Michel de Brunoff. Começou com tarefas simples, mas aos poucos foi introduzindo suas modelagens nas coleções de alta costura da Dior.

1960: o jovem Saint Laurent na maison Dior

1960: o jovem Saint Laurent na maison Dior

A salvação da França
Em 1957, com apenas 21 anos, Yves Saint Laurent assumiu a direção criativa da Dior, logo após a morte de seu fundador. Com a missão de manter o legado e os negócios de Christian Dior, Saint Laurent criou seu primeiro hit – o vestido trapézio, de ombros estreitos e saia evasê, que lhe rendeu o prêmio Neiman Marcus, em 1958, pela contribuição ao mundo da moda.

Durante seu desfile de estreia no comando da maison que havia revolucionado a moda do pós-guerra, a jornalista de moda Marie-José Lepicard relatou que as pessoas se entreolhavam e diziam que a França “estava salva”. Nos anos seguintes, introduziu novas contribuições como jaquetas de couro preto, suéteres de gola rolê, bainhas adornadas com pele e a versão curta da saia entravada de Paul Poiret (considerado um dos estilistas mais emblemáticos do início do século 20), com drapeado justo na barra.

Vestido trapézio: a primeira criação icônica de Saint Laurent para a Dior, nos anos 50

Vestido trapézio: a primeira criação icônica de Saint Laurent para a Dior, nos anos 50

Independência: luta dupla
Apesar de aclamado pela imprensa de moda e pelo público, em 1960 a direção da Dior pediu ao estilista que maneirasse na ousadia dos looks. Em setembro do mesmo ano, Saint Laurent foi convocado pelo exército para voltar a seu país de origem e combater na guerra da independência da Argélia. Foi a deixa para a maison substituí-lo permanentemente pelo também francês Marc Bohan.

Enquanto isso, Saint Laurent sofria um colapso nervoso durante o serviço militar e foi levado para tratamento no hospital psiquiátrico Val-de-Grâce, de volta a Paris. Recuperado, processou a Dior por quebra de contrato e, no ano seguinte, começou a planejar o lançamento de sua marca própria, com o apoio de Pierre Berger – que havia conhecido em 1958 e viria a ser seu companheiro, investidor, sócio e grande amigo até o final da vida. Em novembro, a dupla assinou acordo com o empresário norte-americano J. Mack Robinson, que investiu US$ 700 mil por três anos em troca de 80% dos lucros. No mês seguinte, inaugurou o primeiro ateliê na Rua Spontini, em Paris. Em janeiro de 1962, apresentou o desfile de estreia da marca Yves Saint Laurent.

Musa: com a estrela francesa Catherine Deneuve, em 1966

Musa: com a estrela francesa Catherine Deneuve, em 1966

Letras entrelaçadas: o antigo logo da grife

Letras entrelaçadas: o antigo logo da grife

Em ação: o estilista em seu ateliê

Em ação: o estilista em seu ateliê

Parceiro da vida: Yves Saint Laurent com Pierre Bergé

Parceiro da vida: Yves Saint Laurent com Pierre Bergé

Roupas para a história
Visionário, Yves Saint Laurent começou a criar roupas práticas, mas ao mesmo tempo sofisticadas, que marcaram época, especialmente os anos 60. Em 1962, lançou tendência ao criar batas de jérsei, seda e cetim e também uma japona de lã azul marinho com botões dourados. Em 1963, lançou botas até as coxas, que foram bastante copiadas e, em 1965, introduziu a arte à moda com os vestidos Mondrian, de jérsei branco com silhuetas retas, dotados de linhas verticais e horizontais e espaços preenchidos por cores primárias, uma bela homenagem ao mestre cubista holandês.

Uma de suas inovações de maior sucesso veio em 1966, com o lançamento do smoking feminino, composto por calça masculina e camisa branca levemente transparente – um escândalo para a época, já que alguns lugares até proibiam a entrada de mulheres vestindo calças. No mesmo ano, tornou-se o primeiro a lançar uma coleção de prêt-à-porter ao inaugurar a Yves Saint Laurent Rive Gauche, butique localizada, literalmente, na margem esquerda do Rio Sena (“rive gauche” significa, originalmente, “à esquerda do rio” e é a forma pela qual a parte da cidade situada à margem esquerda do Sena é chamada pelos franceses).

O ano seguinte foi marcado pelo lançamento dos calções de veludo – espécie de bermuda até a altura dos joelhos com um laço de fita amarrado nas bainhas; 1968 foi o ano da jaqueta de estilo safári, a clássica Saharienne; enquanto o terninho, os novos modelos de camisas transparentes e a versão da Yves Saint Laurent para homens vieram em 1969.

1966: o smoking feminino

1966: o smoking feminino

1966: Saint Laurent na abertura da primeira boutique Rive Gauche

1966: Saint Laurent na abertura da primeira boutique Rive Gauche

1968: a top alemã Veruschka com o casaco Saharienne

1968: a top alemã Veruschka com o casaco Saharienne

Mais um clássico: exemplar do terninho feminino em exposição no Museu de Young, em São Francisco, em 2009

Mais um clássico: exemplar do terninho feminino em exposição no Museu de Young, em São Francisco, em 2009

Moda e arte: o icônico vestido Mondrian

Moda e arte: o icônico vestido Mondrian

Expansão e despedida
Nos anos 80, a sigla YSL passou a aparecer nas etiquetas de inúmeros produtos licenciados como perfumes, bolsas, chapéus e óculos, sem contar a linha de maquiagem e cosméticos, grande sucesso até hoje. Na mesma década, Saint Laurent foi condecorado pelo então presidente François Miterrand com a Legião de Honra, honraria máxima concedida pelo governo francês.

Em 1999, o estilista vendeu a marca para o conglomerado de marcas PPR (sigla para Pinaul-Printemps-Redoute; atualmente, o grupo atende pelo nome Kering), mas permaneceu na direção criativa. Em 2000, o estilista Alber Elbaz, que assinava a linha de prêt-à-porter da grife, foi substituído por Tom Ford, que, na época, também era designer da Gucci, outra marca do PPR.

Em 2002, no dia 22 de janeiro, o estilista despediu-se do mundo da moda com um desfile retrospectivo no centro Georges Pompidou, em Paris. Enquanto as principais criações dos 40 anos de trajetória de sua maison saíam da passarela, a atriz Catherine Deneuve, musa do estilista, cantava Ma plus belle histoire d’amour, momento de aplausos e lágrimas para o mestre, que também deixou um icônico discurso de despedida (disponível, em português e na íntegra, em http://goo.gl/Y2Tmxb).

Retrato de mestre: Yves Saint Laurent nos anos 70

Retrato de mestre: Yves Saint Laurent nos anos 70

Adeus às passarelas: no canto direito, Catherine Deneuve canta para Yves Saint Laurent

Adeus às passarelas: no canto direito, Catherine Deneuve canta para Yves Saint Laurent

O jeans, quem diria…
Em uma entrevista à revista britânica Dazed & Confused, em março de 2003, Saint Laurent revelou que o smoking feminino foi a sua criação favorita, graças à sensualidade e à emoção libertadora que proporcionou às mulheres. E, quando questionado se tinha algum arrependimento, o gênio confessou: “lamento não ter inventado o jeans”.

O legado do mestre
Em 2002, depois da despedida de Saint Laurent, Pierre Bergé reuniu um grande acervo de objetos, fotos e roupas para conceber a Fundação Pierre Bergé – Yves Saint Laurent, com sede no número 3 da Rue Léonce Reynaud, no 16º distrito da capital francesa. São mais de 5 mil peças de vestuário, 2 mil pares de sapatos, mais de 10 mil joias e centenas de chapéus criados por Saint Laurent desde o tempo da maison Dior catalogados e exibidos em exposições e retrospectivas pelo mundo afora. Além disso, a fundação também realiza exibições temporárias de artistas plásticos e investe na cena jovem francesa das artes.

Ao mesmo tempo em que seu legado era eternizado com a criação da fundação, o gênio adotou uma vida cada vez mais reclusa, dividido entre suas casas na Normandia e no Marrocos. Morreu em junho de 2008, em Paris, aos 71 anos, em consequência de um câncer cerebral.

Ponto de venda: vitrine em Beverly Hills

Ponto de venda: vitrine em Beverly Hills

Amor e moda
Apesar do nome, o documentário O louco amor de Yves Saint Laurent (no original, em francês, L’amour fou), estreia na direção do francês Pierre Thoretton, transcende a narrativa da história de amor entre o estilista e seu parceiro Pierre Bergé. Lançado em 2010, o filme é um belo registro da importância incontestável de Saint Laurent para a história da moda, que criou peças importantes para o vestuário e ajudou a estabelecer a força do prêt-à-porter.

Com narrativa em primeira pessoa por Bergé, que permaneceu apaixonado pelo designer mesmo após o final do relacionamento dos dois, em 1976, o longa-metragem mostra a face melancólica do mestre, a personalidade normalmente complexa atrelada à genialidade, resgata imagens de desfiles antigos e ícones da marca, além de descrever o amor de um pelo outro em paralelo ao amor pela moda.

Na telona: a importância incontestável de Saint Laurent

Na telona: a importância incontestável de Saint Laurent

A revolução de Slimane
Com a aposentadoria de Yves Saint Laurent, a marca seguiu com estilo assinado pelo italiano Stefano Pilati. Tão dramática quanto a saída do mestre foi a mudança que chegou em 2012, com a contratação do estilista francês Hedi Slimane – que até então assinava a coleção masculina da Dior – como diretor artístico.

A marca então anunciou uma alteração no nome, que passou a se denominar apenas “Saint Laurent”. No novo logotipo, se lê “Saint Laurent Paris”, o que até causou certa confusão sobre qual de fato seria o novo nome. Enquanto a imprensa especializada questionava o propósito de mudar um nome e deixar para trás uma tradição de cinco décadas – sem contar que o nome “Yves” remetia diretamente ao criador da grife – Slimane orquestrava também uma revolução em sua identidade visual e de forma geral, com a intenção de rejuvenescê-la. Mudou o ateliê de Paris para Los Angeles, contratou figuras improváveis como os cantores Marilyn Manson, Kim Gordon e Courtney Love para a nova campanha e buscou inspiração fashion no movimento grunge dos anos 90.

Hedi Slimane: comando polêmico da maison Saint Laurent

Hedi Slimane: comando polêmico da maison Saint Laurent

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Revolução na identidade visual: Slimane recrutou rock stars como Kim Gordon (baixista do Sonic Youth, no topo), Beck (ao centro), Courtney Love e Marilyn Manson (acima) em sua primeira campanha para a Saint Laurent

Revolução na identidade visual: Slimane recrutou rock stars como Kim Gordon (baixista do Sonic Youth, no topo), Beck (ao centro), Courtney Love e Marilyn Manson (acima) em sua primeira campanha para a Saint Laurent

Primavera - verão 2013: a leitura Slimane de clássicos de Saint Laurent

Primavera – verão 2013: a leitura Slimane de clássicos de Saint Laurent

Outono - inverno 2012-2013: inspiração grunge

Outono – inverno 2012-2013: inspiração grunge

A marca em números
A Saint Laurent soma 89 lojas próprias, localizadas nos maiores centros de consumo (inclusive o shopping JK Iguatemi, em São Paulo), sem contar os pontos de venda em lojas de departamentos de mais de 70 países. Suas linhas de produtos incluem roupas, perfumes, óculos, chapéus e joias, com grande destaque nas vendas para as linhas de bolsas e sapatos de couro. Em 2012, a marca contabilizou faturamento de € 473 milhões e lucro de € 65 milhões.

1983: campanha da linha de joias com a top brasileira Dalma Callado

1983: campanha da linha de joias com a top brasileira Dalma Callado

Inovação e tradição
Com coleções de armações de receituário e modelos solares criadas e distribuídas mundialmente pela Safilo, a marca atribui seu ar sofisticado e ao mesmo tempo inovador nos óculos, combinando materiais exclusivos e design criativo, alinhados com o seu estilo. A nova coleção, assinada por Hedi Slimane, inclui modelos masculinos e femininos clássicos, de aros grossos, que resgatam no receituário a imagem que o próprio Yves Saint Laurent imortalizou.

modelo SL17

modelo SL17

modelo SL18

modelo SL18

Ícones
O smoking feminino
Transparências
O vestido trapézio
Minissaias e minivestidos
Estampas em referência à obra de Mondrian
O estilo safári, ou Saharienne

Alta costura: vestido de tricô em exposição no Museu de Young, em São Francisco, em 2009

Alta costura: vestido de tricô em exposição no Museu de Young, em São Francisco, em 2009

Pronúncia
Mais francesa impossível, porém sem muitos mistérios: “Sà lô-RRÔ.

www: Saint Laurent virtual
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