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Mondo Fashion

Salvatore Ferragamo

Conhecido como o “sapateiro dos sonhos”, o artista italiano dedicou sua vida aos sapatos e revolucionou o design do acessório ao introduzir estudos de anatomia, materiais inovadores, inspiração artística e técnicas de produção totalmente artesanal em larga escala.
Sofia Prudente Andra Tavares

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Menino prodígio

modelo SF 656SR

Salvatore Ferragamo nasceu em 5 de junho de 1898, em Bonito, vilarejo italiano próximo a Avellino. Foi o décimo primeiro de 14 filhos e muito cedo descobriu sua vocação – aos nove anos, confeccionou os primeiros pares de sapatos, para as irmãs usarem em sua primeira comunhão. Aos 11 anos, tornou-se aprendiz do sapateiro Luigi Festa, em Nápoles, com quem aprendeu tudo sobre a profissão, e aos 13 já abria uma sapataria na casa dos pais, em frente à igreja da cidade – estrategicamente, escolheu um domingo para inaugurá-la, o que rapidamente atraiu uma pequena multidão de curiosos.

Apesar da pouca idade, Ferragamo conquistou clientela até nas cidades vizinhas e contratou assistentes para fazer não somente reparos e confeccionar botas para fazendeiros, mas também desenvolver modelos femininos exclusivos e elegantes. Em 1912, aos 14 anos, decidiu partir em busca de novos desafios e embarcou rumo aos Estados Unidos, ao encontro dos irmãos mais velhos.

Sucesso em Hollywood

Seu primeiro destino na América foi Boston, onde um de seus irmãos trabalhava em uma fábrica de botas para cowboys. Decepcionado com a qualidade e o acabamento dos sapatos produzidos em série na fábrica, o jovem Salvatore logo percebeu que não estava no lugar certo.

Decidiu então partir ao encontro de outros parentes em Santa Bárbara, na Califórnia. Ali, abriu uma pequena loja para reparos e confecção de sapatos, próximo aos grandes estúdios de cinema e não tardou a receber encomendas de sapatos sob medida para as maiores divas da época como Ava Gardner, Marilyn Monroe e Greta Garbo.

Seu sucesso entre compradoras célebres foi tão grande que Ferragamo passou a ser conhecido pelos apelidos “sapateiro das estrelas” ou “sapateiro dos sonhos” e foi obrigado a mudar-se para Hollywood, mais perto dessa clientela, onde abriu a Hollywood Boot Shop, em 1923. Até então, já havia estudado anatomia humana, engenharia química e matemática na Universidade de Los Angeles, obstinado em sua busca pelo ajuste perfeito dos sapatos.

1956: o designer testa a resistência de suas sandálias de ouro

Diva das divas: Marilyn Monroe, uma das clientes mais célebres de Ferragamo

Retorno à Itália

Em 1927, o já famoso designer de sapatos viu novamente a necessidade de mudar. Como sua loja não podia atender a demanda dos pedidos com a qualidade que ele mesmo exigia, Ferragamo decidiu voltar à Itália e estabelecer-se em Florença, cidade com tradição em artesanato, em busca de mão de obra mais qualificada.

No ano seguinte, inaugurou a primeira fábrica de sapatos totalmente confeccionados à mão, com uma equipe composta por 60 artesãos treinada diretamente por ele e capacidade de diária de produção de mais de 350 pares. Foi o primeiro artista a produzir sapatos artesanais em grande escala.

Na mesma época, também abriu uma loja no Palazzo Spini Feroni, que logo se tornou destino obrigatório não somente de moradores locais, mas também de clientes europeus e até as grandes estrelas de cinema, que já conheciam a qualidade, o conforto, o acabamento perfeito e, principalmente, o estilo inigualável de seus calçados. Audrey Hepburn, Carmen Miranda, Marlene Dietrich e Greta Garbo eram clientes fiéis – essa última, por exemplo, chegou a encomendar 70 pares de uma só vez.

Década de 30: o designer em sua oficina

1954: Ferragamo com a estrela Audrey Hepburn

Design inovador

Nos anos 30 e 40, a escassez de couro por conta da crise na Europa levou Ferragamo a exercer sua criatividade não apenas no design, mas também na busca por novas matérias-primas. Celofane, cortiça, palha, cânhamo, escama de peixes, tecidos pintados à mão e feltro foram alguns dos materiais que baratearam a produção e atribuíram inovação às criações do mestre.

Mesmo assim, a busca pelo conforto norteou algumas de suas grandes invenções, como a palmilha compensada e o solado estável de cortiça – que evoluiu para o célebre salto Anabela, de 1938. Sua conexão com o mundo das artes também imprimiu personalidade aos calçados, bem diferentes dos tradicionais pretos e beges da época – como o modelo com mosaicos coloridos no salto, lançado em 1939, reflexo de uma tendência arquitetônica daquele período.

Outras de suas célebres criações foram as sandálias romanas com tiras, plataformas multicoloridas, a sandália Calipso (com tiras de cetim pretas), o famoso salto “gaiola” com uma armação de metal e ainda o favorito de Marilyn Monroe – um escarpim com salto agulha de metal.

O primeiro grande sucesso mundial de Ferragamo foi a sandália invisível, de 1947, feita com fios de náilon, o que o levou a ser o primeiro designer de sapatos ganhador do prêmio de moda norte-americano Neiman Marcus, concedido pela loja de departamentos de mesmo nome. Até 1957, o italiano já havia criado mais de 20 mil modelos e registrado 350 patentes.

1937: a primeira patente de um artigo de moda na Itália foi concedida a Ferragamo

1927: o primeiro sapato produzido em Florença, batizado de “Labirinto”. É a interpretação da vanguarda artística da época, justamente quando Ferragamo viveu nos Estados Unidos

1938: o modelo Pic-Nic, coberto de flores de ráfia bordadas à mão, é uma menção a um bucólico piquenique em uma tarde de primavera

1942: sapato de camurça colorida, mais um clássico do mestre dos sapatos

1948: em era de crise e escassez de couro, Ferragamo lançou mão da criatividade ao usar materiais alternativos como a palha

1955: bota de brocado dourado feita para a atriz Sophia Loren

O legado de um gênio

Salvatore Ferragamo morreu em 7 de agosto de 1960, aos 62 anos. Sua mulher Wanda e seus seis filhos herdaram não somente os negócios da família, mas também a paixão por sapatos e deram continuidade à tradição do trabalho artesanal e à constante reedição de clássicos.

O ateliê no Palazzo Spini Feroni – edifício medieval construído em 1289, na Via Tornabuoni, em Florença – é até hoje a sede da empresa, que mantém o estilo de produção artesanal criado pelo mestre em 1927. Atualmente, a fábrica produz mais de 11 mil pares de sapatos por dia, mas o couro ainda é cortado manualmente e cada peça passa cinco dias sendo moldada.

A matriarca Wanda Ferragamo Miletti é atualmente diretora honorária dos negócios. Entre os filhos, Ferrucio Ferragamo é o atual presidente da empresa; Giovanna Ferragamo atua como vice-presidente; Leonardo Ferragamo é diretor geral da Palazzo Feroni Finanziaria S.p.A, a holding da família; Massimo Ferragamo é diretor da Ferragamo USA, companhia responsável pela distribuição da marca na América do Norte desde os anos 50 e Fulvia Ferragamo dirige a divisão de acessórios de seda, ou lenços. Já a mais velha, Fiamma Ferragamo, que morreu em 1998, é tida como a figura mais importante na continuidade do trabalho do pai e sua direção criativa culminou no lançamento de alguns grandes clássicos. A expansão da grife nas décadas seguintes permitiu que 23 herdeiros, entre filhos e netos, viessem a participar do Grupo Ferragamo.

A expansão dos negócios

Desde os anos 90, a empresa familiar passou a lançar também coleções de roupas masculinas e femininas, acessórios, lenços, perfumes, cosméticos, relógios e óculos – a ampliação no leque de produtos sempre foi um sonho do mestre Ferragamo. A década também viu o crescimento da marca no mercado asiático, com abertura de lojas em Xangai e Hong Kong, e ainda a aquisição da marca francesa Emanuel Ungaro, em 1996, e de três hotéis em Florença, em 1997.

Em 2009, a grife ampliou sua rede de lojas para mais de 550, incluindo 19 novas unidades em aeroportos. No ano seguinte, superou a marca de US$ 1 bilhão em faturamento. Atualmente, são mais de 580 pontos de venda em 80 países, incluindo cinco unidades no Brasil.

Além dos herdeiros, a marca conta hoje com o estilista Massimiliano Giornetti na direção criativa e ainda com a gestão do diretor executivo Michele Norsa. No primeiro semestre, o grupo anunciou números surpreendentes – lucros de US$ 73,5 milhões (crescimento de 22,3% em relação ao mesmo período de 2011 e aumento de 23% nas vendas, chegando a US$ 742,5 milhões).

O atual diretor criativo atual da marca, Massimiliano Giornetti

Florença: o Palazzo Spini Feroni, sede do império Ferragamo

Nova York: uma das mais importantes lojas da grife italiana nos Estados Unidos

A história preservada

Em 1995, foi inaugurado em Florença o Museo Salvatore Ferragamo, espaço dedicado à preservação da história e das criações do seu fundador. Localizado no segundo andar do Palazzo Spini Feroni, apresenta os estudos de Ferragamo sobre a anatomia dos pés e as suas técnicas artesanais revolucionárias. O acervo inclui fotografias, rascunhos, patentes, formas de madeira de pés muito famosos, livros, revistas e exibição em rodízio de uma coleção com mais de 10 mil modelos, além de trabalhos em parceria com artistas da época – como os esboços do pintor futurista Lucio Venna para a etiqueta da marca.

Florença: fachada e interior de uma das salas do museu de Salvatore Ferragamo, no Palazzo Spini Feroni

Cenas de cinema

Mal dá para reparar no que ela calça, mas uma criação de Ferragamo está presente em uma das mais memoráveis cenas da história do cinema, mais precisamente do filme O pecado mora ao lado, dirigido por Billy Wilder, em 1955: além do esvoaçante vestido, a diva Marilyn Monroe usa uma sandália do mestre italiano.

Ferragamo versão óculos

A marca italiana apresentou sua primeira coleção de óculos em 1998 em uma parceria com a Luxottica e, desde janeiro, a corporação norte-americana Marchon é a responsável pela criação, a produção e a comercialização de sua coleção de armações de receituário e óculos solares.

A grife já tem seu lugar reservado na história da óptica por conta das séries especiais de óculos que homenageiam brilhantemente os modelos icônicos de calçados criados pelo mestre. A Marchon acaba de lançar a sua primeira série Ferragamo, inspirada no modelo Arcobaleno ou Rainbow (termos, respectivamente, em inglês e italiano, para “arco-íris”), uma sandália plataforma de camadas arredondadas e multicoloridas feita sob encomenda para a atriz Judy Garland, em 1938.

Além das séries especiais, os modelos da coleção celebram a história da marca e fazem reverência aos sapatos do mestre na profusão de cores, na riqueza de detalhes e na fluidez das formas, resultando em um estilo singular, surpreendente e sempre moderno.

Ícone da vez: a sandália Arcobaleno ou Rainbow, desenhada em 1938 para a atriz Judy Garland, é a inspiração para a nova série especial de solares Ferragamo

Série Arcobaleno modelo 624S 006

Série Arcobaleno modelo 624S 214

Ícones

Produção artesanal em larga escala
Formas e palmilhas anatômicas, desenvolvidas a partir de um profundo estudo da anatomia dos pés
Plataformas coloridas, imortalizadas nos pés de Carmen Miranda
O salto Anabela
O sapato invisível, feito com fios de náilon
O salto “gaiola”, que consiste em uma armação vazada de metal
A sandália Maharani, inspirada nos calçados de uma princesa indiana

1938: a sandália de contas multicoloridas feita para a princesa Indira Devi, de Cooch Behar, batizada de “Maharani” (termo que, na Índia, define a mulher do marajá)

www: Salvatore Ferragamo virtual

www.salvatoreferragamo.it
www.facebook.com/SalvatoreFerragamo
www.twitter.com/Ferragamo
www.youtube.com/user/FerragamoOfficial

Pronúncia

Sem mistérios para o público brasileiro: “Sal-va-TÔ-re Fer-ra-GÂ-mo”. Ambas as sílabas tônicas (“TÔ” de “Salvatore” e “G” de “Ferragamo) têm pronúncia fechada, átona.

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