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Mondo Fashion

Valentino

Um dos grandes ícones da moda do século 20, o italiano Valentino Garavani aposentou-se das passarelas, mas deixou um nome que ainda se destaca na alta costura e no glamour dos tapetes vermelhos – a mesma cor, aliás, que se tornou marca registrada de suas criações.
Graziela Canella Divulgação Concepção Andrea Tavares

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Arte no DNA

Valentino Clemente Ludovico Garavani nasceu em 11 de maio de 1932, na pequena cidade de Voghera, entre Turim e Milão, na região da Lombardia. Recebeu esse nome em homenagem dos pais, Teresa De Biaggi e Mauro Garavani, ao ator italiano Rodolfo Valentino, astro do cinema mudo na época. Enquanto cursava o ensino primário, já manifestou interesse pela moda e trabalhou como aprendiz com as costureiras da cidade, como a designer Ernestina Salvadeo, além de estudar desenho no Instituto Santa Maria, em Milão. O talento precoce foi motivo para os pais o levarem para estudar em Paris, na École dês Beaux-Arts (do francês, “Escola de Belas Artes”) e, em seguida, na Chambre Syndicale de la Couture Parisienne (do francês, “Câmara Sindical da Alta Costura Parisiense”).

Carreira em Paris

Em 1952, ganhou um concurso de estilismo e uma vaga no ateliê de Jean Dessès, com quem trabalhou por cinco anos. Foi nesse período que começou a desenvolver um estilo próprio de construção da silhueta com drapeados, camadas, tecidos suntuosos e referências exóticas, como estampas animais.

Até hoje, Valentino não gosta de lembrar que uma “esticada” nas férias no balneário francês de Saint-Tropez o levou a perder o emprego na maison Dessès, mas logo conseguiu uma nova oportunidade com Guy Laroche, ainda em início de carreira. Os dois se conheceram trabalhando com Dessès e Valentino auxiliou o amigo a estabelecer seu negócio, desde a área criativa até a comercial. Depois de dois anos, em 1959, decidiu voltar à Itália e estabelecer-se em Roma, desta vez para lançar sua própria marca.

1962: retratado pelo milanês Gian Paolo Barbieri, um dos pioneiros na fotografia de moda

A primeira diva

Em 1960, enquanto a Europa vivia o auge da efervescência cultural, o jovem Valentino começava a atrair clientes para seu recém-inaugurado ateliê em Roma. Foi quando o estilista teve seu primeiro contato com uma grande estrela de Hollywood, Elizabeth Taylor, que passava um período na cidade para as filmagens de Cleópatra. A atriz se encantou com o trabalho de Valentino e encomendou um vestido para a pré-estreia mundial do filme Spartacus. De seda plissada e com plumas na barra, o modelo branco contribuiu para o reconhecimento internacional do criador e foi o primeiro de muitos vestidos de Valentino que brilharam em tapetes vermelhos – frequentemente vermelhos, cor que o estilista diz ser seu equivalente ao preto básico.

Anos depois, mais precisamente em 1968, foi um vestido curto e bordado que atraiu olhares do mundo todo, usado pela eterna primeira-dama dos Estados Unidos, Jacqueline Kennedy, em seu casamento com o milionário grego Aristóteles Onassis – uma semana depois, o estilista já havia recebido mais de 60 pedidos de vestidos de noiva. Atualmente, sua casa de moda é favorita de estrelas como Julia Roberts, Cate Blanchett, Nicole Kidman, Anne Hathaway, Jennifer Aniston, entre outras.

Roma, 1961: Elizabeth Taylor de Valentino, acompanhada do astro Kirk Douglas, na première de Spartacus

Grécia, 1968: Jackie Kennedy casa de Valentino com Aristóteles Onassis

Rei do tapete vermelho: Anne Hathaway, Jennifer Aniston e Julia Roberts vestem Valentino em noites de Oscar

De ateliê a grife internacional

Em 1961, Valentino lançou a primeira coleção com 120 modelos em seu ateliê em Roma, na Via Condotti, com apoio financeiro dos pais. A coleção, no entanto, só foi apresentada oficialmente em 1962, com desfile no Palazzo Pitti, em Florença – capital da moda italiana na época. Foi aclamado pela imprensa e vendeu peças para socialites de várias partes do mundo.

Não tardou para que o estilista se consagrasse como um grande nome da alta costura, especialmente porque, aos 30 anos, já possuía um talento amadurecido – mérito que permaneceu por décadas, já que até os anos 80 era um dos poucos estilistas fora da França a cumprir os inúmeros pré-requisitos necessários para integrar sem restrições seu comitê de alta costura – vale mencionar que apenas maisons locais, e desde que cumpram uma série de condições prévias, podem fazer parte do tão restrito universo da alta costura e estrangeiros só são bem-vindos como membros-convidados. Assim, em 1975, realiza seu primeiro desfile de alta costura na capital francesa.

Outro fator que contribuiu para a expansão da marca foi o apoio de Giancarlo Giammetti, parceiro e sócio de Valentino. A dupla se conheceu em 1960 e logo Giammetti abandonou a faculdade de arquitetura para assumir a direção comercial da marca, organizando as finanças e planejando a expansão internacional que ocorreria nos anos seguintes. Com o lançamento da coleção Valentino’s White, em 1968, exibiu o famoso logo com a inicial “V” pela primeira vez. No início dos anos 70, já abria lojas nas cidades de Roma e Milão, e lançava coleções prêt-à-porter masculinas e femininas.

1983: especial Valentino na Vogue Italia, clicado por top fotógrafos como o alemão Helmut Newton

Décadas de consolidação

Na segunda metade da década de 70, a marca expandiu no varejo e no mix de produtos – com o lançamento de seu primeiro perfume, Valentino Classique, em 1978. Nos anos seguintes, com a abertura de butiques sofisticadas em países como Estados Unidos e Japão, introduziu linhas de jeans, camisetas, acessórios e objetos de decoração (de papéis de parede a móveis).

No final dos anos 90, Valentino vendeu a marca para uma associação industrial comandada pelo herdeiro da Fiat, Gianni Agnelli, que planejava criar um império de moda. A marca teve pouco crescimento sob gestão de seu conglomerado, a HdP, e foi vendida em 2002 para o Marzotto Group – gigante do setor têxtil de Milão – por US$ 210 milhões. No ano seguinte, teve sucesso com o lançamento da linha jovem, a Red Valentino, e do perfume V. Em 2005, o grupo se reestruturou e firmou-se como um conglomerado, chamado Valentino Fashion Group, dono das marcas Hugo Boss, Missoni e Marlboro Classics, com faturamento de € 1,72 bilhão.

A nova operação resultou na divisão da marca Valentino em quatro frentes: Valentino (que engloba alta costura, prêt-à-porter, acessórios, perfumes e óculos); Valentino Garavani (divisão de calçados, malas, bolsas e artigos de couro); Valentino Roma (prêt-à-porter mais casual) e Red Valentino. Os anos seguintes foram marcados por inaugurações de lojas em cidades estratégicas como Bancoc (Tailândia), Honolulu (Havaí), Buenos Aires e Dallas. A última mudança se deu julho, quando o Valentino Fashion Group (incluindo Valentino, Missoni e Marlboro Classics, sem a Hugo Boss) foi adquirido pelo grupo de investimentos da família real do Qatar por € 700 milhões.

Imperador no cinema

Adorado pelas estrelas de cinema desde o início da carreira, Valentino também já teve suas experiências à frente das câmeras. Em 2008, o jornalista e cineasta norte-americano Matt Tyrnauer, que já havia entrevistado o estilista para uma matéria da revista Vanity Fair, lançou o documentário Valentino: o último imperador. Tyrnauer teve acesso exclusivo à casa e ao escritório do mestre e mostra detalhes de seu processo criativo nos últimos anos de trabalho, o relacionamento com o parceiro Giammetti e seu estilo de vida extravagante – além de documentar o impacto de seu trabalho no mundo da alta costura e vice-versa.

Antes disso, em 2006, o criador já havia aparecido na telona, no papel dele mesmo, em O diabo veste Prada – adaptação cinematográfica do livro homônimo da norte-americana Lauren Weisberger. Nas filmagens do filme, que relata a experiência de uma jovem jornalista em uma grande revista de moda, Valentino conheceu sua última musa, a atriz Anne Hathaway.

Um filme para chamar de seu: imperador também nas telas
O diabo veste Prada: em cena com Meryl Streep

A despedida do mestre

Em 23 de janeiro de 2008, uma tenda instalada nos jardins do Museu Rodin, em Paris, foi cenário do último desfile da marca com Valentino Garavani na direção de estilo da grife – o estilista havia anunciado sua aposentadoria após 45 anos de carreira e passava o cargo para a italiana Alessandra Facchinetti.

O desfile de tailleurs de tons pastel e longos de chiffon vermelho foi aplaudido de pé por 800 convidados, entre os quais as estrelas Uma Thurman e Lucy Liu e os estilistas Miuccia Prada e Emanuel Ungaro. Sobre a aposentadoria, lembrou uma expressão comum entre os ingleses: “gostaria de sair da festa quando ainda está cheia”. Após sua saída e a rápida passagem de Alessandra Facchinetti, logo a dupla italiana Pier Paolo Piccioli e Maria Grazia Churi assumiu a direção de estilo da marca – e permanece até hoje. Sua primeira coleção foi bastante elogiada e manteve a preferência de fashionistas e celebridades.

Valentino em números

O império Valentino hoje está presente em mais de 80 países, incluindo o Brasil. Tem mais de 130 lojas em cidades como Nova York e Moscou, além de pontos de venda em 1,25 mil lojas de departamentos, com coleções de roupas, acessórios, relógios, óculos, cosméticos e perfumes. Comandada pelo Valentino Fashion Group e com Stefano Sassi no cargo de diretor geral, a grife tem faturamento estimado em € 280 milhões.

Milão: detalhes da loja na Via Montenapoleone, um dos pontos mais nobres da moda no planeta

Luxo nos óculos

Beira um quarto de século a relação de Valentino com o universo dos óculos. Em 1990, lançou sua primeira coleção em parceria com a Luxottica, de 1998 a 2010 trabalhou em parceria com a Safilo e, no ano seguinte, assinou com a Marchon o contrato de criação, produção e distribuição de sua linha de eyewear.

Sob a direção criativa dos designers da grife, Maria Grazia Chiuri e Pier Paolo Piccioli, a coleção traduz a elegância clássica e os valores da história da casa de moda italiana com uma visão contemporânea, que atrai também um público jovem e antenado.

modelo 2602R 613

modelo V641S 440

Museu virtual

Em 2011, já aposentado, o estilista promoveu em Nova York o lançamento de um museu virtual em 3D, disponível em www.valentinogaravanimuseum.com. Inédito no universo da moda, o site simula a visita a um museu, com navegação que permite transitar por seus salões que comportam mais de 300 de suas criações e ainda arquivos de mais de 5 mil fotos e 100 vídeos.

www: Valentino virtual
www.valentino.com
www.facebook.com/valentino
www.twitter.com./maisonvalentino
www.youtube.com/valentino
http://pinterest.com/valentino
www.instagram.com/maisonvalentino

Ícones

O logotipo com a letra “V”
O “vermelho Valentino”, tom de vermelho vivo que se tornou assinatura do estilista. Segundo o próprio, “o vermelho é fascinante – é vida, sangue da morte, paixão, amor; é a cura total da tristeza”
Vestidos de noite elaborados com bordados, plissados, pregas horizontais e verticais que geram efeitos incomuns
Estampas animais como zebra, girafa e leopardo
Em coleções recentes, tem inserido elementos que logo se tornam referência, como sobreposições de renda, tachas e laços

2011: Valentino com a top russa Natalia Vodianova no museu Nissim de Camondo, em Paris, para especial da Vogue

Pronúncia

Essa figura no topo do ranking das mais fáceis: “Va-len-TÍ-no”. Sem mistério algum.

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