tamanho da letra : imprimir

Dicas & Estratégias Provar

Sustentabilidade e consumo no varejo brasileiro

Em mais um artigo que celebra a parceria entre a VIEW e o Provar, a professora Flávia Cristina Mendes considera estratégicas as práticas sustentáveis no ambiente empresarial, inclusive no varejo.
Flávia Cristina Mendes

Enviar por email

Compartilhar

A sustentabilidade, hoje em dia, pode ser considerada como o caminho mais importante para uma transformação nos âmbitos social, econômico e ambiental das empresas. E, para ser colocada integralmente em prática, precisa fazer parte da estratégia das corporações, necessita estar presente em todas as áreas, ser debatida com diversos públicos e deve ser uma vantagem competitiva na gestão organizacional.

A pesquisa O consumidor brasileiro e a sustentabilidade: atitudes e comportamentos frente ao consumo consciente, percepções e expectativas sobre a Responsabilidade Social Empresarial, realizada em 2010 pelo institutos Akatu e Ethos, revelou que 44% da população brasileira não acreditam que as empresas realmente fazem aquilo que divulgam em termos de responsabilidade social e sustentabilidade. Essa falta de credibilidade mostra que muitas empresas ainda não compreenderam o quão importante se tornou a gestão empresarial sustentável e, por esse motivo, não sabem incorporá-la em sua estratégia de negócios.

Saindo da inércia – O primeiro passo para a empresa é ter consciência do seu papel na sociedade como forma de compreender o que pode ser feito, ter noções de ética e das consequências de suas ações aos olhos dos consumidores. Para isso, é preciso integrar a sustentabilidade com a missão, a visão e os valores organizacionais. Sem uma real transformação na cultura da empresa, a sustentabilidade nunca se transformará em uma estratégia de negócio, sempre estará associada apenas a um discurso vazio, sem base prática e esse, certamente, não é o papel de uma empresa sustentável.

O desafio da sustentabilidade – Se as empresas conseguiram realizar uma adaptação na sua cultura empresarial, têm, na sequência, outro desafio: transformar esses valores em práticas de fato sustentáveis. As indústrias podem incorporar a gestão sustentável em seus processos de produção – dentro de um processo produtivo, é mais fácil identificar e medir práticas sustentáveis.

Já para as empresas prestadoras de serviços, as práticas sustentáveis são mais difíceis de serem realizadas e, até mesmo identificadas. Muitas aderem a causas sociais e ambientais para construir uma trajetória de sustentabilidade.

Os varejistas dependem dos produtos e dos serviços, sendo assim, podem ter mais dificuldade para adaptar a sustentabilidade à sua cultura, mas também têm mais facilidade na gestão de todos os processos e mais poder de controle na seleção da cadeia produtiva.
As causas ambientais vêm sendo debatidas desde 1970 e muito já foi desenvolvido. As leis ambientais são mais claras do que as sociais. Ainda que o debate e as ações estejam em evolução, a maioria das empresas varejistas se destaca em sustentabilidade nas práticas ambientais. Um exemplo é o setor supermercadista que, nos últimos cinco anos, investiu em uma gestão mais sustentável em ações como a logística reversa, tornando-se responsável pelo descarte correto feito pelo consumidor – as práticas de reciclagem têm sido ampliadas para a diminuição do impacto das embalagens no processo de produção e no descarte.

Muitos varejistas também estão cada vez mais preocupados com a comercialização de “produtos verdes”, cujo processo de produção não agrida o meio ambiente. Isso inclui também avaliar as matérias-primas utilizadas como parte da qualificação dos fornecedores. A construção de lojas verdes também é uma ação valorizada por esse setor. Segundo o Relatório de sustentabilidade 2012 do Walmart, a rede possui 25 lojas consideradas ecoeficientes. O Pão de Açúcar, conforme seu relatório anual, tem cinco lojas do gênero, sendo que duas obtiveram o Leadership in energy environmental design (Leed), certificação para construções sustentáveis, concedida pela organização não governamental norte-americana U.S. Green Building Council (USGBC), que leva em conta os critérios de racionalização de recursos como energia, água, etc.

O novo consumidor – Apesar de muitos varejistas praticarem e promoverem a sustentabilidade, enfrentam outro desafio que é saber como se relacionar com um consumidor mais consciente.

Com o surgimento de uma nova ordem socioeconômica, um novo comportamento social permitiu que a conexão entre pessoas passasse a ser mais integrada e instantânea. As empresas, mesmo apoiando-se na sua estrutura física local, precisaram buscar meios para interagir com esse novo consumidor, muito mais consciente e com uma capacidade muito maior de comunicação e expressão.

Hoje em dia, a maioria dos consumidores tem plena consciência dos seus direitos e deveres. A internet e as redes sociais abriram as portas para um novo mundo, um grande canal de comunicação que cria diálogos interativos entre empresas e consumidores.

O cliente tornou-se mais exigente, pois não precisa mais comprar apenas o que está ao seu alcance, mas o que escolher para comprar, já que existem muito mais opções. E também percebeu que poderia usar as redes sociais, principalmente o Twitter e o Facebook, como canais de comunicação ao seu favor, com a possibilidade de se manifestar diante de uma grande quantidade de pessoas de forma rápida e, assim, trocar informações sobre empresas e produtos.

As mensagens fornecidas por esses novos consumidores transformaram-se em referência para outros consumidores, que estão atentos se uma empresa tem ou não uma postura de sustentabilidade e que atitudes toma diante das pressões sociais e ambientais.

Caminhos futuros – Nos últimos cinco anos, os varejistas entenderam que incorporar práticas sustentáveis para a sua gestão é importante para um viés econômico tanto como forma de reduzir custos operacionais e ainda manter a qualidade de produtos e serviços, quanto de valorização da sua marca perante o consumidor. Dentro da cadeia produtiva, os varejistas exercem um papel muito importante em ser o elo entre a indústria e o consumidor.

Por ser um caminho aparentemente mais fácil, os varejistas começaram a valorizar ações destinadas à área ambiental, mas hoje os projetos sociais também têm destaque, principalmente por contribuírem com as comunidades locais e incentivarem um consumo mais consciente e equilibrado.

O consumo consciente não é a falta de consumo, mas um consumo que equilibre os pilares da sustentabilidade – econômico, social e ambiental. Portanto, tanto varejistas quanto indústrias dependem desse consumo consciente para o desenvolvimento e o crescimento do mercado que atuam.

Essas tendências já fazem parte dos projetos de sustentabilidade nas empresas e estão evoluindo a cada dia. O caminho ainda é longo, a sociedade precisa se conscientizar e participar mais, mas muitas portas já se abriram para a gestão sustentável das empresas. A sustentabilidade ainda é um tema complexo, mas ações estão sendo realizadas para que, em um futuro próximo, haja integração entre empresas, sustentabilidade e consumidores.

Mestre em Comunicação pela Escola de Comunicações e Artes (Eca) da Universidade de São Paulo (Usp), Flávia Cristina Mendes é professora e coordenadora de cursos no Provar/Fia. Atua há dez anos nas áreas de comunicação, marketing e gestão de negócios como pesquisadora e assessora de comunicação e marketing. Também é colunista do portal Comunifoco (comunifoco.com.br).

Enviar por email

Compartilhar

Últimas edições