tamanho da letra : imprimir

Dicas & Estratégias Provar

Tênis novo e pouco oxigênio

O professor Claudio Felisoni de Angelo compara os tênis novos aos incentivos que o governo tem dado ao consumo e o oxigênio ao poder de compra do brasileiro, questionando a eficácia dessa combinação. Este é mais um artigo que celebra a parceria entre a VIEW e a renomada instituição de varejo, o Provar.
Claudio Felisoni de Angelo Arte Débora Nascimento

Enviar por email

Compartilhar

Vive-se em um mundo agitado e movimentado. Entretanto, por mais paradoxal que pareça, o fenômeno da inércia é bem mais presente do que se imagina. A inércia é uma propriedade física da matéria em que um corpo mantém a velocidade inicial ao longo de todo o seu deslocamento. Os preços, por exemplo, podem mover-se inercialmente como resultado das variações precedentes. Assim, a variação esperada para o próximo mês é supostamente igual aos aumentos ou às reduções ocorridas anteriormente.

Quando as situações que circundam os eventos são razoavelmente constantes, as projeções baseadas na inércia são a princípio ajustadas, ou seja, o que se espera tende, de fato, a se repetir. De modo geral, por exemplo, os indivíduos ao avaliar as condições do tempo sem outras informações, tendem a deduzir que no dia seguinte as condições que vigorarão são aproximadamente as mesmas dos dias passados. Isto é, se ontem fez sol de manhã e choveu durante a tarde, espera-se para amanhã sol de manhã e chuva também no período da tarde.

Tudo muda – Ocorre, entretanto, que as condições de contorno, ou seja, as que revestem a situação, infelizmente mudam. Ninguém sadio imagina usar um casaco pesado independentemente do tempo. As roupas se adaptam aos dias. Dias de sol pedem roupas leves; dias frios, roupas mais quentes.

O governo, preocupado com o crescimento pífio do Produto Interno Bruto (PIB) até aqui, tem procurado reeditar as mesmas medidas que funcionaram na crise de 2008, logo após a quebra do banco Lehman Brothers. Isso quer dizer exatamente o seguinte: desoneração fiscal, facilidades de crédito e liberação de depósitos compulsórios junto ao Banco Central.

Dito de outro modo, mais oxigênio para o consumo. Oxigênio esse bombeado do mesmo modo, ou seja, reproduzindo padrões anteriores.

De acordo com a terminologia aqui adotada, pode-se dizer que o governo segue adotando um comportamento inercial. Tais medidas não objetivam realmente construir a expansão anunciada, isto é, de 4,5%, nem mesmo 4%. Até os mais otimistas não arriscam projetar um aumento anual do PIB superior a 2,7%. Porém, acredita-se que mesmo esses magros 2,7% dependem das possibilidades de expansão do consumo interno.

Gatilho do endividamento – Em que pese a importância do consumo para dinamizar a expansão do PIB é importante sinalizar que as condições de contorno hoje são muito diferentes daquelas que vigoravam há quatro anos. Desde 2004, o consumo vem crescendo de forma acelerada. Primeiro, pelo próprio alargamento da faixa intermediária de renda da população (entre quatro e dez salários mínimos) e, depois, como já explicado, pelos estímulos dados para tentar superar a crise anterior.

Renda real maior, porém não muito maior, prazos médios longos (600 dias) e taxas de juros estratosféricas: tudo isso combinado gera um efeito alavanca para endividamento, isto é, não inercial.

Lamentavelmente é o que está ocorrendo. Ao mesmo tempo em que o governo anuncia as medidas de estímulo, o Banco Central divulga uma expansão da inadimplência. De fato, desde janeiro de 2011 a inadimplência, medida com os pagamentos em atraso acima de 90 dias, vem crescendo sistematicamente. Em janeiro, esse percentual era de 5,4% e foi subindo, chegando a 7,6% em abril.

O governo quer que os indivíduos comprem mais. Nesse papel, age como um indivíduo que acena para um corredor, estimulando-o a comprar um novo par de tênis. O tênis é financiado, obviamente, em parcelas, a juros menores, mas não muito menores. Agora com um tênis novo – e talvez também com um novo abrigo – o consumidor até quer correr, mas, infelizmente, falta-lhe oxigênio

 

O professor Claudio Felisoni de Angelo é presidente do conselho do Programa de administração do varejo (Provar) e do Instituto brasileiro de executivos de varejo e mercado de consumo (Ibevar).

 

Enviar por email

Compartilhar

Últimas edições