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Mind the glasses versão 2011

Sabrina Duran Marcela Ferri Concepção Andrea Tavares e Sabrina Duran

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A colaboradora da VIEW, Sabrina Duran, voltou à capital inglesa de férias em julho e preparou uma versão 2011 de Mind the glasses, série que enriqueceu sete edições da VIEW em 2008 e 2009. Mais uma vez, a jornalista foi além dos óculos ao tratar da transformação de comportamento dos londrinos durante o verão e ainda mostrar a força da década de 80 na moda desse fascinante pedaço de mundo chamado Londres.

Nos anos de 2008 e 2009, durante sete edições, mais precisamente entre a VIEW 91 e a VIEW 97, a gente contou com a colaboração mais que luxuosa da jornalista Sabrina Duran e do fotógrafo André Penteado, que foram os anfitriões de uma sensacional incursão pela terra da rainha produzindo uma série de matérias, batizada de “Mind the glasses”, que destacavam pontos altos do conhecimento, da criatividade e da diversidade em Londres, alguns dos motivos que a tornam uma das capitais mais criativas e vanguardistas do mundo.

De 2009 para cá, ano em que voltou a morar no Brasil, Sabrina já embarcou em novas rotas pela América do Sul e, mais recentemente, dedicou-se a conhecer faces do país que boa parte dos brasileiros nem sonha existir, produzindo um rico material ao embrenhar-se por vilarejos no interior e no litoral do Norte e do Nordeste. Mas as férias vieram e nossa colaboradora decidiu matar as saudades da capital inglesa. Rumou para lá no final de julho e então a gente não resistiu em produzir um Mind the glasses versão 2011, com uma única matéria sobre o comportamento e a moda no verão da cidade. Dessa vez, no entanto, o fotógrafo André Penteado deu lugar à colega Marcela Ferri, outra brasileira por lá radicada.

Mas sempre vale explicar o porquê do título “Mind the glasses”. Tudo começou em 2004, quando, após uma temporada londrina, outra colaboradora de longa data da VIEW, Cíntia Marcucci, relatou algumas curiosidades relacionadas ao Planeta óculos na cidade e batizou a matéria com esse título, publicada na VIEW 58.

Na época, Cíntia definiu-a muito bem aos leitores: “passei pouco mais de oito meses vivendo do jeito que inglês gosta, o que costumei chamar de ‘mind the gap way of life’. Eu explico: ‘mind the gap’ é a frase repetida a cada minuto nas estações de metrô locais e significa ‘tome cuidado com o vão’ existente entre a plataforma de embarque e os trens. Lá, eles prestam atenção em tudo e tomam cuidado com tudo, especialmente se não estão atrapalhando o próximo, isto é, existe um respeito muito grande pelo espaço de cada um – daí o ‘estilo de vida mind the gap’. Por isso, também a brincadeira do título: ‘mind the glasses’, algo como ‘preste atenção nos óculos’”.

Seguindo o caminho de Cíntia, Sabrina, agora acompanhada pelos cliques de Marcela, foi além dos óculos e mostra a transformação de comportamento dos londrinos durante o verão e ainda mostra a força da década de 80 na moda desse fascinante pedaço de mundo chamado Londres.

O futuro é em 1980

Enquanto aqui, deste lado do globo, muitas cidades viviam um frio daqueles, do outro lado do mapa-múndi os ingleses, desde junho, deixaram de lado as roupas escuras e sisudas do frio para dar lugar a cores fortes, estampas animais e exageros típicos de 1980, década que chegou com tudo para influenciar a moda londrina durante o verão europeu.

Os jornais londrinos de 1º de agosto de 2011 anunciavam com entusiasmo e apreensão: dentro de dois dias, chegaria à capital inglesa uma onda de calor que elevaria a temperatura daquele verão a 30ºC, deixando a cidade litorânea de Malibu, no estado norte-americano da Califórnia, tradicional destino de veraneio da gente abastada, em uma posição climática bem aquém em relação a Londres, com míseros 24ºC.

Para um inglês acostumado ao frio e à ausência de sol durante quase todo o ano, um verão de 30 graus – ou mesmo um de 22ºC – é um evento quase como é o carnaval para o brasileiro: intenso, colorido, esperado o ano todo, mas com duração bem curta. De junho a meados de setembro, a capital da Inglaterra vive sua época mais bem humorada, leve e feliz. Os britânicos, muito mais reservados e menos dados ao riso do que os latinos, ficam até mais afáveis durante a estação mais ensolarada do ano. Mas é na moda em que mais se nota a transformação por conta do sol e do calor.

Respirando os anos 80 – Quem anda pelas ruas de Londres hoje tem a impressão de estar ao lado de personagens daqueles filmes oitentistas, até hoje clássicos da global Sessão da tarde, como Curtindo a vida adoidado, Os Goonies, Gremlins e Procura-se Susan desesperadamente, ou em algum videoclipe do A-Ha, do The Smiths ou de Cindy Lauper.

As calças jeans femininas estão baggy de novo, bufantes nos quadris e pernas e com o cós bem acima da cintura, segurando camisetas cavadas e camisas sem manga de tecido frio abotoadas até a gola que vão por dentro da calça, alongando as pernas (já longas) dos ingleses. Sapatilhas de pano com solado de corda, para homem e mulheres, aparecem quase sempre em branco ou azul marinho, assim como as listras nas camisetas de algodão de gola canoa, dessas de marinheiro.

Também para homens e mulheres, os cabelos estão bem batidos dos lados, muitas vezes raspados, e com grandes e engomados topetes no melhor estilo Morrissey, o vocalista do The Smiths, ou mais maleáveis e naturais como o do cineasta David Lynch – as inglesas parecem ter passado por alto aquele corte sem corte dos repicados que começavam no alto da cabeça e iam descendo em formato de ovo de queratina até os ombros. Os óculos continuam seguindo o conceito nerd de armações grandalhonas e grossas de acetato. Mas ainda mais evidentes que eles está o clássico Ray-Ban Clubmaster e suas releituras, que vão combinados com todo o tipo de roupa daquela década de cortes, cores e estampas de “charme desconjuntado”: leggings de onça, polainas coloridas, camisetas de algodão surradas com estampas de cartoons antigos, camisas havaianas tal qual no seriado A ilha da fantasia, collants e abrigos esportivos que parecem saídos do túnel do tempo, tênis de cano alto e até a peça non-grata que virou uma das principais marcas dos guarda-roupas femininos oitentistas: a camisa com ombreiras. Sim, ela está de volta nas ruas da capital inglesa. E está bem, revisitada, menos bufante, mas ainda com aquela pegada grandalhona e quadrada das mulheres que apareciam no seriado A gata e o rato, aquele que fez do ator Bruce Willis um astro de Hollywood.

Lojas especializadas em roupas vintage e retrô, como a Beyond Retro e outras menores espalhadas pela Brick Lane (rua multiétnica londrina) vivem lotadas. Os preços das roupas variam de acordo com a raridade e a qualidade das peças, mas é possível encontrar itens originais dos anos 80 em ótimo estado de conservação por cerca de 7 libras – algo em torno de R$ 20, verdadeira pechincha para uma relíquia de três décadas atrás.

Estilo completo – O melhor da moda verão londrina é que não está apenas no armário dos locais, em roupas, sapatos e acessórios. Ela é completa e está impressa no estilo de vida do inglês, que nessa época aproveita fora de casa e do local de trabalho o máximo possível do tempo de sol e do espaço público. Prefeitura e entidades privadas fazem sua parte organizando, semanalmente, festivais de dança, música, literatura e comida em parques, centros culturais e, principalmente, à beira dos canais que cortam a cidade. Parques e praças, sempre limpos e bem cuidados, ficam lotados de flores e ingleses que, durante a semana, se esparramam na grama na hora do almoço, com gravatas afrouxadas e pés descalços, para comer sanduíches naturais, tomar sucos e provar frutas que consideram a verdadeira sobremesa, muito mais que doces e bolos.

O metrô londrino, o mais antigo do mundo com quase 150 anos, é um dos lugares mais quentes da cidade durante o verão. Por não comportar os modernos sistemas de ar condicionado, obriga os passageiros a suar e aguentar o quanto podem durante suas viagens em vagões abafados em que o ar, quando circula, é quente e denso. Novamente, o poder público faz sua parte e recomenda insistentemente, por meio de cartazes espalhados por todas as estações, que os passageiros tenham sempre à mão uma garrafa de água para se refrescar das agruras do verão vivido em túneis estreitos.

Já de volta à superfície, os londrinos seguem sua rotina típica de verão em suas bicicletas, pedalando à beira dos canais, ou caminhando, e, ao contrário do que faria um típico brasileiro acostumado ao calor, não só não procuram a sombra, como “miram” o sol e caminham onde seus raios incidem. De tão devotos ao período do calor e da luz abundantes, beiram o inusitado na sua ânsia de perpetuar a estação. É comum ver em cafés, restaurantes e até na parte externa de centros culturais algumas reproduções artificiais de ambientes naturais, como as gramas sintéticas e areia (simulando praia) instaladas no exterior dos estabelecimentos e que servem de ponto de relaxamento para os ingleses enquanto leem, conversam ou tomam sua cerveja do fim do expediente. E eles gostam disso. E aproveitam, o que é mais interessante: retiram suas Havaianas (item básico de todo verão britânico) e pisam com um prazer sincero a grama e a areia artificiais milimetricamente instaladas sobre o cimento. Dali não saem até que o sol, esse visitante bissexto, se vá, por volta das 20h. Exagerados, esses londrinos – talvez por isso os excessos oitentistas tenham caído como uma luva nesse verão inglês.

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