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Jogo Rápido

“Sejam bem-vindos e sejam felizes!”

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Nenhuma frase poderia expressar tão bem a doce e brilhante figura de Thomaz Farkas, quanto a do título desse tributo à memória do fotógrafo, cineasta, engenheiro e também executivo, que morreu em 25 de março, aos 86 anos, em São Paulo. A VIEW reproduz nestas páginas trechos de um texto datilografado pelo próprio Thomaz aos jornalistas Clarissa Schneider e Matinas Suzuki lá pelos idos de 2007, quando foi convidado para uma entrevista e também fragmentos de uma entrevista concedida à VIEW em 2002, por ocasião da produção do suplemento História do varejo óptico, parte integrante da VIEW 69, que circulou em dezembro de 2005. E nada melhor que suas próprias e memoráveis fotografias para ilustrar esse tributo, que foram gentilmente cedidas pelo Instituto Moreira Salles, responsável por seu acervo.
Nestes trechos, Thomaz relata um pouco de sua vida, sua relação com a óptica, seu amor pelo Brasil e, principalmente, deixa transparecer a leveza, a genialidade e alegria de viver, traços marcantes de sua personalidade.
“Na minha andança pelo nosso Brasil, vi muito e senti muito mais ainda. Nasci na Hungria em 1924 e vim para cá com meus pais em 1930, portanto com cinco anos e tanto. Ora, a minha vida foi muito variada: comecei estudando na escola alemã Olinda Schule, até 1933, quando passei pelo Colégio (então Escola Nacional) Rio Branco e depois pela [Escola] Politécnica, onde me ‘formei’ em 1947. Fui ainda professor na Eca [Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo, a Usp] com ótimos alunos; os colegas professores…

Enquanto estava na Escola Politécnica, fiz um documentário sobre a cidade de Santos, no litoral paulista, e alguns filmes mais familiares. A partir de 1964, fizemos o que chamo de Caravana Farkas dos filmes pelo nordeste do país – durante quatro, cinco anos, viajamos pela região, produzindo documentários.

No segundo ano de existência da Eca, fui chamado para dar aulas de fotografia. Procurei investir na vida acadêmica, mas, por motivos políticos, meu doutorado atrasou vários anos. Cinema, já não faço mais. Talvez volte um dia. Ainda fotografo com câmera manual – a automática é para amadores, para a criançada.

Trabalhei ainda na loja de fotografia de meu pai (Fotoptica), onde conheci tudo em equipamento de fotografia e cinema, o que me facilitou mais tarde, conhecer e fotografar o Brasil, do sul ao Amazonas e o Pará.

Passei a frequentar a Fotoptica aos 18 anos, quando entrei na Politécnica. Morávamos próximos à Avenida Paulista, em uma travessinha na esquina com a Rua da Consolação. Eu pegava o bonde, descia na Praça Ramos de Azevedo, atravessava o Viaduto do Chá e seguia pela Rua São Bento até o Largo São Bento. Ali eu pegava o bonde para a escola. Assim, passava na Fotoptica tanto na ida como na volta. Entrava todos os dias e aí peguei gosto. Além disso, eu era filho único. Sempre adorei fotografia e cinema, mas nunca fui um homem de negócios. Para tocar essa parte, contei com uma boa equipe.

Em 1947, concluí os estudos e passei a me dedicar com exclusividade à Fotoptica. O curso de Engenharia permitiu que eu projetasse os laboratórios da empresa. Também fiz curso de óptico prático, tenho até o diploma. Eu me dediquei muito: sempre interessado, queria saber o que estava acontecendo.

A especialidade da Fotoptica era o atendimento: os profissionais de venda tinham os seus clientes preferidos da mesma forma que os clientes tinham profissionais favoritos. Era a fidelidade de pessoa a pessoa.

Em julho de 2001, ao visitar a feira Óptica, em São Paulo, fiquei muito lisonjeado ao ser reconhecido por vários proprietários de ópticas. Quando trabalhava no Centro, de fato todo mundo se conhecia – e não apenas quem era do ramo. Estacionava o carro no Vale do Anhangabaú e andava cumprimentando as pessoas. O Centro era extremamente atraente com seus bons restaurantes e cafés. Acompanhei as mudanças, o crescimento da região e gosto de ver hoje sua revitalização. Sempre que posso, passeio por lá: continua sendo fascinante.

Nunca vi país igual, pois andei bastante pelo estrangeiro; se me perguntarem onde preferiria viver: Suíça, Estados Unidos, Portugal, Espanha ou voltar a viver na Hungria, diria um grande NÃO. E por que não? Fácil: nunca vi gente tão ótima, como existe aqui na nossa terra. Gentileza, trabalho, oportunidade para todos (ainda hoje). Enfim, não sinto melhor canto para existir, morar, casar, ter filhos, netos e bisnetos.

Corri as florestas, de norte a sul, campos, sertão, rios e praias. Mas, novamente, o que me fascinou foram as pessoas que fui encontrando: conversas, entrevistas, aventuras, fotografando e fazendo filmes; nunca encontrei uma que me perguntasse: ‘por que faz cinema? Onde vou aparecer e como?’.

Afinal, o que foi um Brasil para quem nasceu fora? Muitos amigos e colegas dos 12 aos 15 anos, vendo as árvores do Pacaembu crescerem; ver a construção do Estádio do Pacaembu; vi e fotografei a torcida feliz ou infeliz, dependendo sempre do gol; deles ou nosso!

Como é gostoso o nosso país! (Não esqueçam que sou brasileiro – naturalizado – há 65 anos). Do Ceará ao Rio Grande do Sul, do Amazonas aos interiores. Há algum lugar do mundo onde se come tão variado e gostoso? Há florestas mais fabulosas? Gente, há tanta coisa para ver!

A todos, desejo que viajem bastante, não interessa como, ônibus, trem, barco, automóvel, para todas as cidades: você, moço, tio, pai, filhos, todos por todo o Brasil: nunca vão ver e comer coisas mais interessantes, melhor, variada e abundante. Leiam bons livros, revistas, olhem mapas…

Meu desejo é que vão felizes, alegres e contentes. Vão ver o que ainda não viram; comerão o que não comeram; aproveitem a vida; não interessa a idade, as condições econômicas de cada um, mas olhem, cheirem, comam e bebam de tudo!
Sejam bem-vindos e sejam felizes!”

Princípio: “desde os seis, sete anos de idade, eu era completamente fascinado pelo processo de captação das imagens” © Arquivo pessoal

Fotógrafo, cineasta e óptico: passar todos os dias pela Fotoptica na ida e na volta da faculdade fez Thomaz pegar gosto pela óptica © André Penteado

O estádio, parte de sua vida: “ver a construção do Estádio do Pacaembu; vi e fotografei a torcida feliz ou infeliz, dependendo sempre do gol; deles ou nosso!” © Acervo IMS

Dois flashes sensacionais: o Palácio da Alvorada ainda em construção e o povo transita livremente diante do Congresso Nacional na nova capital do Brasil © Acervo IMS

Genialidade: instantâneos do Brasil como ninguém © Acervo IMS

As letras de Marcos Amaro
Arte, ética, política e filosofia são os principais temas presentes em Ponto de Vista, um livro para indivíduos criadores, do proprietário das Óticas Carol e da OpArt, Marcos Amaro.
O livro é uma compilação dos artigos publicados por Amaro no portal da revista Exame nos últimos dois anos e pode ser adquirido no site da editora americana Blurb (www.blurb.com),que entrega em todos os países.

A obra é ilustrada pelas imagens dos participantes do Trecho 2.8 Fotografia, projeto criado pelo Instituto Brasis Estudos e Ações e a Gens Educação e Cultura, que reúne um grupo de pessoas em situação de rua para fotografar cenas do cotidiano de São Paulo. Os valores arrecadados com a venda dos livros serão doados aos participantes do projeto.

Marcos Amaro: a face literária do empresário com Ponto de vista © Acervo VIEW

Ooops, a gente precisa corrigir…
… a data correta de realização da MinasÓptica 2011: 7 a 9 de julho.

© Divulgação

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